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1 de jan. de 2026
Meta compra Manus AI: a investida para dominar a corrida dos agentes autônomos
Meta arremata Manus AI por 2 bilhões de dólares e polemiza por forçar a quebra das raízes chinesas.

Vinicius Teixeira

Num negócio fechado nos últimos dias de 2025, a Meta concretizou a aquisição da startup chinesa Manus AI por mais de 2 bilhões de dólares. Esta é considerada a terceira maior compra da história do grupo dono do Facebook e representa uma jogada estratégica para colmatar o atraso da gigante tecnológica na corrida à "IA agêntica", sistemas que vão além dos chatbots tradicionais e executam tarefas complexas de forma totalmente autônoma.
O negócio e os números por detrás da compra
Em 29 de dezembro de 2025, a Meta anunciou oficialmente a aquisição da Manus, uma startup de inteligência artificial fundada na China mas atualmente com sede operacional em Singapura . Embora os termos financeiros exatos não tenham sido divulgados oficialmente, múltiplas fontes, incluindo o The Wall Street Journal e a Bloomberg, avançaram que o valor da transação ultrapassa os 2 bilhões de dólares (aproximadamente 625 bilhões de dólares taiwaneses ou 1,7 bilhões de euros).
Este valor posiciona a compra da Manus como a terceira maior aquisição da Meta desde a sua fundação, ficando apenas atrás da compra do WhatsApp (19 bilhões) e da Scale AI (14 bilhões por 49% da empresa) . Liu Yuan, sócio da ZhenFund, uma das investidoras iniciais da Manus confirmou à imprensa chinesa esta classificação histórica do negócio.
A aquisição acontece num momento em que a Manus se preparava para uma nova ronda de financiamento que avaliava a empresa em exatamente 2 bilhões de dólares. A Meta teria igualado ou ligeiramente superado essa avaliação para garantir o negócio.
O que é a Manus e porque é tão valiosa?
A Manus ganhou notoriedade mundial em março de 2025, quando uma versão preliminar do seu agente de IA se tornou viral nas redes sociais. Ao contrário dos chatbots convencionais que respondem a perguntas de forma isolada, a tecnologia da Manus é capaz de planear, decidir e executar ações encadeadas a partir de instruções gerais do utilizador.
Na prática, o agente da Manus consegue:
Produzir relatórios de investigação detalhados
Construir páginas web personalizadas
Filtrar candidatos para processos de recrutamento
Planear viagens completas (reservas, itinerários, orçamentos)
Analisar carteiras de investimento complexas
Tudo isto com mínima intervenção humana e utilizando modelos de IA de empresas como Anthropic e Alibaba.
O crescimento da startup foi meteórico. Em apenas oito meses após o lançamento, a Manus atingiu os 100 milhões de dólares em receitas recorrentes anuais (ARR), um marco que a própria empresa reivindica como o mais rápido da história das startups . Atualmente, a plataforma já processou mais de 147 biliões de tokens e criou mais de 80 milhões de "computadores virtuais" , ambientes simulados onde os seus agentes executam tarefas para clientes empresariais.
A estratégia da Meta: pagar para não ficar para trás
A aquisição da Manus expõe uma das maiores ansiedades de Mark Zuckerberg nos últimos anos. Enquanto a Meta concentrou os seus esforços de IA no desenvolvimento do modelo Llama e na abordagem de pesos abertos, a concorrência avançou rapidamente no campo da IA agêntica.
Empresas como Microsoft e OpenAI já contavam com recursos significativos nesta área específica. A Google também tem investido pesadamente em ferramentas autónomas. A Meta, apesar do seu domínio nas redes sociais, estava claramente atrás neste segmento.
"A IA agêntica era a nova corrida das Big Tech e a Meta ia muito atrás. Comprou a empresa mais capaz para recuperar terreno", sintetizou o site especializado Xataka.
Com a compra da Manus, a Meta não adquire apenas tecnologia madura e testada no mercado. Compra também um produto que já gera receita significativa, algo raro no setor de IA, onde muitas empresas operam há anos sem modelos de negócio sustentáveis.
Alexander Wang, responsável de inteligência artificial na Meta, destacou que a experiência da equipa de Singapura "explora o potencial dos modelos atuais para construir agentes potentes", tornando a Manus um "aliado chave" para as ambições do grupo.
O plano: integração nos produtos Meta e independência operacional
A Meta delineou uma estratégia de dois eixos para a Manus. Por um lado, a tecnologia da startup será integrada nos produtos existentes do grupo, nomeadamente no Meta AI e nas plataformas Facebook, Instagram e WhatsApp.
Por outro lado, a Manus manterá a sua operação independente, continuando a comercializar os seus serviços de subscrição diretamente aos clientes empresariais, com preços que variam entre 20 e 200 dólares mensais . A sede operacional permanecerá em Singapura, para onde a empresa se transferiu nos últimos anos.
O CEO e cofundador da Manus, Xiao Hong (conhecido como "Red"), reportará diretamente a Javier Olivan, diretor de operações da Meta, o que indica a importância estratégica do negócio e a autonomia prometida à gestão da startup.
"Unirmo-nos à Meta permite-nos construir sobre uma base mais sólida e sustentável sem alterar a forma como a Manus funciona ou como as decisões são tomadas", declarou Xiao Hong no anúncio oficial.
A polêmica: "apagar as origens chinesas" e a segurança nacional
O fato de a Meta uma empresa norte-americana símbolo do Vale do Silício adquirir uma startup com raízes chinesas num setor tão sensível como a IA gerou de imediato preocupações geopolíticas e de segurança nacional.
A Manus foi inicialmente desenvolvida pela empresa Butterfly Effect, fundada em Pequim em 2022 por dois empreendedores chineses. A maioria dos seus investigadores e engenheiros estava originalmente baseada na China, em escritórios de Pequim e Wuhan.
No entanto, a empresa nunca lançou o seu produto no mercado chinês, precisamente porque utiliza modelos de IA norte-americanos que não estão disponíveis na China devido a restrições regulatórias e de exportação.
Após uma ronda de financiamento de 75 milhões de dólares liderada pela americana Benchmark em abril de 2025, a Manus transferiu oficialmente a sua sede para Singapura e suspendeu os planos de desenvolver uma versão para o mercado chinês .
Agora, com a aquisição pela Meta, o processo de "desligamento" da China é levado ao extremo. Andy Stone, porta-voz da Meta, foi perentório: "Após a conclusão do negócio, a Manus não terá qualquer vínculo com investidores chineses e cessará todas as operações e serviços na China".
Esta declaração visa claramente mitigar potenciais objeções das autoridades norte-americanas, num contexto de crescente rivalidade tecnológica entre Washington e Pequim. Contudo, a eficácia desta estratégia é incerta. Em janeiro de 2026, Pequim já anunciou que vai investigar o negócio para verificar se viola leis chinesas sobre exportação de tecnologia ou segurança nacional.
Os investidores iniciais da Manus que incluíam gigantes como Tencent, Sequoia Capital China e ZhenFund foram completamente excluídos da operação, segundo fontes da Bloomberg.


